Padrões Globais para Análise de Sêmen Humano: Um Guia Comparativo (OMS 6ª, ISO 23162, ESHRE e ASRM)
Em 2021, o panorama da andrologia humana foi redefinido pela dupla publicação do Manual da 6ª Edição da OMS e do padrão ISO 23162:2021. Esses documentos moveram o campo em direção à padronização rigorosa, enfatizando que a precisão só é possível através de controle de qualidade rigoroso e redução da subjetividade humana.
1. Fase Pré-Analítica: A Base da Qualidade
A padronização começa antes que a amostra chegue ao microscópio. Tanto a OMS 6ª quanto a ISO 23162 enfatizam que variáveis pré-analíticas são a causa mais comum de resultados "falsos" de sub-fertilidade.
- Período de Abstinência: Padronizado em 2 a 7 dias. A ASRM observa que, embora a abstinência mais longa aumente o volume e a contagem, ela reduz significativamente a motilidade e aumenta a fragmentação do DNA (DFI).
- Coleta: Deve ser realizada em um recipiente pré-validado para o Ensaio de Sobrevivência de Espermatozoides Humanos (HSSA).
- Avaliação Macroscópica: O volume deve ser medido com alta precisão. A ISO 23162 recomenda medir por peso (assumindo uma densidade de 1,0 g/mL) para evitar a perda por "adesão à parede" associada a pipetas ou cilindros graduados.
- pH: O limite inferior permanece 7,2. Valores abaixo disso, combinados com baixo volume, podem indicar problemas obstrutivos (por exemplo, CBAVD).
2. Concentração e Contagem Total de Espermatozoides: A Métrica Quantitativa
A avaliação quantitativa da produção de espermatozoides é um preditor primário do potencial de fertilidade.
A. Concentração vs. Número Total de Espermatozoides
- Concentração de Espermatozoides: O número de espermatozoides por mililitro. Limite inferior da OMS 6ª: 16 × 10⁶/mL.
- Número Total de Espermatozoides: A contagem total por ejaculado inteiro (limite inferior da OMS 6ª: 39 × 10⁶).
- Valor Clínico: A ASRM e a ESHRE enfatizam que o Número Total de Espermatozoides é um indicador mais robusto da saúde testicular do que a concentração isoladamente, pois leva em conta toda a produção reprodutiva.
B. O Equipamento "Padrão Ouro" (ISO 23162 vs. Outros)
- Hemocitômetro de Neubauer Melhorado: Tanto a OMS 6ª quanto a ISO 23162 determinam este como a única câmara de contagem manual aceitável.
- Rejeição de Câmaras de Profundidade Fixa: Um ponto principal de divergência. A ISO 23162 proíbe estritamente o uso de câmaras de profundidade fixa (por exemplo, lâminas Makler ou Leja) para avaliação definitiva de concentração porque seu alto Coeficiente de Variação (CV) não atende aos padrões internacionais de precisão.
- Contagem Replicada: A ISO 23162 requer duas réplicas separadas (contando pelo menos 200 espermatozoides cada). Se os resultados das duas contagens não se alinharem dentro de uma faixa estatística específica (distribuição de Poisson), o teste deve ser repetido.
3. Motilidade Espermática: Medindo a Competência Progressiva
A motilidade é a medida da "energia vital". A OMS 6ª simplificou a classificação para reduzir a alta variabilidade inter-observador encontrada em edições anteriores.
A. A Classificação de Três Categorias
O sistema anterior de 4 graus (A, B, C, D) foi substituído por um sistema mais objetivo de 3 categorias:
- Motilidade Progressiva (PR): Espermatozoides movendo-se ativamente, seja linearmente ou em um grande círculo, independentemente da velocidade.
- Motilidade Não Progressiva (NP): Movimento sem progressão (por exemplo, nadando em pequenos círculos, ou apenas cabeça/cauda vibrando).
- Imobilidade (IM): Nenhum movimento.
- Valor de Referência: A OMS 6ª requer ≥30% Progressiva (PR) ou ≥42% Motilidade Total (PR + NP).
B. O Requisito Térmico (O Ambiente "Semelhante à Vida")
- Mandato ISO 23162: A motilidade espermática é altamente dependente da temperatura. A ISO 23162 requer que a análise seja realizada a 37°C.
- Racional Clínico: Analisar em temperatura ambiente (20-22°C) faz com que o metabolismo dos espermatozoides diminua, resultando em pontuações "falsamente" baixas de motilidade progressiva. Palcos de aquecimento integrados (como os encontrados no SQA-6100VET) são essenciais para conformidade com este padrão.
4. Morfologia Espermática: Os "Critérios Estritos"
A morfologia fornece o insight mais profundo no "controle de qualidade" biológico dos testículos.
A. Critérios Estritos de Kruger (A Regra de 4%)
Todos os padrões convergem para os Critérios de Kruger (Estritos). Um espermatozoide só é "Normal" se for essencialmente perfeito. Qualquer espermatozoide "limítrofe" é categorizado como anormal.
- Limiar Normal: ≥4%.
- Anatomia Cabeça/Cauda: Dimensões específicas para comprimento da cabeça (3,7–4,7 μm) e tamanho do acrossoma (40–70% da área da cabeça) são necessárias.
B. O Índice de Teratozoospermia (TZI)
A OMS 6ª recomenda calcular o TZI, que é o número médio de defeitos por espermatozoide anormal. Um TZI alto é um marcador de disfunção significativa da espermatogênese, mesmo que o percentual total normal esteja acima de 4%.
C. Aplicação Clínica (FIV vs. ICSI)
A ASRM e a ESHRE esclarecem que a maior utilidade clínica da morfologia está em selecionar o modo de fertilização. Se a morfologia for <4%, os laboratórios frequentemente mudam da FIV padrão para ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides) para garantir que os espermatozoides com melhor aparência sejam manualmente selecionados para fertilização.
5. Tabela Resumo: Comparando os Padrões da OMS 5ª e 6ª Edição
Esta tabela descreve os principais "Limites Inferiores de Referência" (5º percentil) para sêmen humano.
| Parâmetro | OMS 5ª Ed (2010) | OMS 6ª Ed (2021) |
|---|---|---|
| Volume de Sêmen (mL) | 1,5 | 1,4 |
| Número Total de Espermatozoides (10⁶/ejaculado) | 39 | 39 |
| Concentração de Espermatozoides (10⁶/mL) | 15 | 16 |
| Motilidade Total (PR + NP, %) | 40 | 42 |
| Motilidade Progressiva (PR, %) | 32 | 30 |
| Vitalidade (Espermatozoides Vivos, %) | 58 | 54 |
| Morfologia Normal (%) | 4 | 4 |
6. Garantia de Qualidade Laboratorial (Foco Central da ISO 23162)
A conformidade com a ISO 23162 requer mais do que apenas seguir o manual da OMS; requer prova documentada de precisão.
- CV Intra-observador: Os técnicos devem provar que podem contar a mesma amostra duas vezes e obter o mesmo resultado dentro de uma margem de erro de 10%.
- Avaliação Externa de Qualidade (EQA): Os laboratórios devem participar de testes de proficiência globais (como programas ESHRE ou CAP) para comparar seus resultados com outros laboratórios padronizados.
- Relatório Padronizado: Os relatórios devem declarar claramente quais padrões foram seguidos e incluir as faixas de referência para cada parâmetro para auxiliar a interpretação do clínico.
Conclusão: O Caminho para a Precisão
A modernização da análise de sêmen humano é definida por uma mudança de "intuição do técnico" para metodologias objetivas, automatizadas e controladas por temperatura. Ao aderir aos requisitos combinados da OMS 6ª e ISO 23162, os laboratórios garantem o mais alto nível de precisão diagnóstica, fornecendo aos pacientes um roteiro confiável para sua jornada de fertilidade.
Referências e Recursos Técnicos
- Organização Mundial da Saúde (2021). Manual de laboratório da OMS para exame e processamento de sêmen humano, 6ª ed.
- ISO 23162:2021. Exame básico de sêmen — Especificação e métodos de teste.
- Grupo de Interesse Especial em Andrologia da ESHRE. Diretrizes de melhores práticas para análise de sêmen.
- Comitê de Práticas da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) (2021). Avaliação diagnóstica do homem infértil: uma opinião do comitê.